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O Espectáculo Desvirtuado. O teatro português sob o reinado de Salazar (1933-1968)
Graça dos Santos
Os poderes, sejam políticos ou religiosos, são tradicionalmente desconfiados em relação ao teatro. Então, como é que ao longo do quase meio século (1926-1974) da ditadura portuguesa, esta arte, que vai buscar a sua energia ao corpo do actor e ao olhar do espectador, conseguiu sobreviver?
À luz das memórias de artistas, de arquivos de encenadores, de artigos
de imprensa, Graça dos Santos estuda a vida teatral e em geral a vida artística
sob o regime de Salazar. Tendo como pano de fundo outras variantes europeias
de ditadura, analisa as particularidades e evolução da política de teatro
do regime, que prefere a esquiva ao confronto, a descrição ao alarido, a prevenção
à repressão. Partidário de uma arte de "fachada da nação" que encobre a realidade
concretizada no Teatro do Povo, pálida sombra do Théâtre du peuple
(Bussang) , Salazar encena o Estado Novo, com a cumplicidade de António
Ferro, responsável da Propaganda. Apesar de uma vigilância opressiva, o teatro
irá evoluir da submissão para a resistência, graças ao teatro amador e ao
teatro universitário, que vão dar origem ao teatro independente que anuncia
a Revolução dos Cravos.
Ao longo dos capítulos, a autora reconstrói o difícil percurso dos diversos protagonistas que fizeram com que o encontro entre a cena e a sala se mantivesse. O acento colocado sobre a legislação teatral e a censura, os serviços de propaganda, as condições de vida da "gente do espectáculo" sublinha os méritos dos que conseguiram desafiar as interdições. A evolução multiforme da prática teatral será um sinal anunciador da necessária democratização de um país que se pretendeu imobilizar.
Resultante da dupla cultura e dupla experiência da sua autora, este livro vem juntar um novo episódio à história do teatro europeu do século XX.
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Género(s):
Não-ficção/ Ensaio/ Teatro
Acabamento: brochado
Dimensão:
14,5x21 cm
Páginas: 388
Peso:
457 g |
Colecção:
«Universitária», n.º 99
Código: 11.099
ISBN: 972-21-1659-2
1.ª edição: Novembro 2004
Preço:
22,00
€
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Índice de conteúdos Prefácio
Nota prévia à edição portuguesa
Agradecimentos
Prefácio à edição francesa
Siglas e abreviaturas
Introdução. A ASFIXIA DO TEATRO
Uma memória dolorosa
A censura, uma tradição portuguesa
Desenterrar os fantasmas de um passado demasiado recente
"Em busca do teatro perdido"
Um domínio de investigação insuficientemente explorado
Museu imaginário
Vestígios particularmente difíceis de descobrir
O teatro disperso
Epopeia em torno de um mistério
1933-1968: uma espécie de reinado
Capítulo I. SALAZAR E O SALAZARISMO: MODELOS OBRIGATÓRIOS PARA A CULTURA
O cenário está definido
Contexto político e social
Uma abordagem do Estado Novo
Comparações usuais
As personagens e a acção: Salazar e o salazarismo
Entre a lenda e a realidade, Salazar visto pela França
Devagar mas com segurança
Quarenta anos de poder para 48 anos de ditadura
Propaganda e cultura, em nome de uma ideologia
Estudo comparativo
A história como exemplo, o passado mitificado
A idealização do povo e da vida rural: a folclorização
Da abnegação à apatia
Entre a propaganda e a censura: enquadrar e educar
Capítulo II. ANTÓNIO FERRO: ENTRE GOEBBELS E MALRAUX
Embriagado pelo modernismo, fascinado pelo fascismo
Os primeiros modernistas, seduzidos por Paris
Encontro oportuno com homens notáveis, o grupo Orpheu
José de Almada Negreiros, um artista incontornável
Ferro, "poeta da acção" a caminho "das ditaduras"
Entre o jornalismo e as veleidades artísticas
Entre o marketing e a encenação do Poder
Da "Política do Espírito" à "Campanha do Bom Gosto"
Paul Valéry invocado como apoio
Ferro e Salazar: um duo harmonioso?
As referências ao teatro, testemunho da fraude
A arte como fachada da nação, a arte como disfarce
A Exposição do Mundo Português
A revista Panorama, estética do ornamental
Verde Gaio, os Bailados Russos à portuguesa?
Os ideais revisitados
O compromisso entre "clássico" e "moderno", servido por um folclorismo elegante
O reajustamento do homem e da sua imagem
Utilizar a arte "para modificar a alma do povo português"
O balanço e os hiatos
"Política do Espírito": perda de fôlego e de apoio
Depois de Ferro
Regresso ao Mar Alto
Teatro Novo, teatro de arte ou teatro de bolso?
"O cinema é o teatro do futuro"
Capítulo III. O TEATRO DO POVO, UMA CRIAÇÃO DO PODER
Que teatro para que povo?
As viagens parisienses
As tournées francesas a Portugal
O teatro português antes de 1945
O teatro moribundo
O Teatro do Povo não é o mesmo que o Théâtre du peuple de Bussang
Um teatro para educar o povo
"Teatro ambulante ao ar livre"
A realidade e o sonho de acordo com os ideais do salazarismo
Utilizar o teatro para fins pedagógicos e ideológicos
De 1936 a 1955, vinte anos de um percurso desigual
Uma periodização aleatória
1952: o Teatro do Povo copia o Théâtre populaire
Os três últimos anos: uma qualidade reconhecida
1955: o fim oficialmente programado
Do Teatro do Povo ao Teatro Nacional Popular
Para compreender uma evolução inesperada
O concurso de peças do Teatro do Povo
Uma estética ajustada à "Política do Espírito"
O público popular idealizado por Ferro
A viragem para os clássicos nacionais e estrangeiros
Público ou povo?
O teatro supera a propaganda
A direcção de actores
Cenografia e dispositivo cénico
Francisco Ribeiro: do Teatro do Povo ao Teatro Nacional Popular
Os primeiros passos do actor
A primeira Companhia, Os Comediantes de Lisboa
Entre a audácia e o compromisso
"Gastão Baptista"
Do cartel a Jean Vilar
À Espera de Godot, o memorável "canto do cisne"
Capítulo IV. UMA LEGISLAÇÃO CONSTRANGEDORA
A lei e a sua prática
As bases para a concretização da vontade de controlo
Um sistema de vigilância
Estruturas corporativistas para o teatro
O Sindicato Nacional e o Grémio dos artistas
Um sistema desnivelado
Uma "protecção" condicionada
As companhias apoiadas
Salas de espectáculo concentradas em Lisboa
A rentabilidade, critério essencial
O difícil acesso à profissão de actor
Uma abordagem comparativa do fenómeno da censura
Uma dimensão intrínseca de qualquer sistema de poder
Uma espada de Dâmocles
Interiorizar a cultura do censor
O teatro e a censura eclesiástica
Uma tradição portuguesa
Dois modelos duradouros
A evolução do teatro moldada pela censura
Almeida Garrett, a abertura liberal
Censura do teatro e salazarismo, métodos e consequências
A censura institucionalizada
Análise e classificação dos diversos elementos do espectáculo
Subjectividade da proibição
A prática da censura
A revista, um exemplo paradigmático
Os censores
Uma memória difícil
Representar sob uma apertada vigilância
Os banidos do palco
Uma ameaça permanente
Capítulo V. RECUPERAR O TEMPO PERDIDO: O TEATRO PORTUGUÊS DE 1945 AOS ANOS SESSENTA
Um teatro "castrado"
Crise endémica
Obrigado a fugir à realidade
O teatro reage aos sinais de vida
Entre submissão e resistência
O teatro de revista
Uma dupla filiação
Género compósito em constante evolução
Teatro do momento e espontâneo
Entre bravatas e transigências
O Teatro Nacional
O "estilo nacional"
Companhia privada concessionária
Repertório e estética
À imagem da actividade teatral portuguesa
As energias renovadas do pós-guerra
O teatro experimental
O Teatro-Estúdio do Salitre
Os Companheiros do Pátio das Comédias
O Teatro Experimental do Porto (TEP)
O Teatro Experimental de Cascais (TEC)
Outras experiências
A Casa da Comédia
O Teatro Moderno de Lisboa (TML)
O Teatro Estúdio de Lisboa (TEL)
O Grupo 4
Outros exemplos
O teatro universitário
Movimento de contestação
Uma prática renovada
O Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra (TEUC)
O Círculo de Iniciação Teatral da Academia de Coimbra (CITAC)
O Cénico de Direito
O teatro do Instituto Superior Técnico (IST)
O Grupo de Letras (Grupo da Faculdade de Letras de Lisboa)
Por um teatro independente
Conclusão. O CORPO REASSUMIDO
O espectáculo desvirtuado
A festa a qualquer preço
Impedir uma exteriorização incontrolada
O palco utilizado para fins ideológicos
Criar sob pressão
Um público anestesiado
O artista, cúmplice da sua própria mutilação
"Um longo túnel"
Quebrar o isolamento
O país de ficção superado pelo país real
Comunicar com o exterior
A revolta do corpo
ANEXOS
A revista portuguesa face à censura
Cronologia do Teatro do Povo
Os directores do Teatro do Povo
Referências ao Teatro do Povo
A actividade teatral entre 1950 e 1959
Fontes e bibliografia
Índice de nomes
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