Março de 2007 - Ana Saldanha Entrevista elaborada a partir de questões formuladas pelos leitores
Observando que alguns dos seus livros estão acompanhados por ilustrações (de Alain Corbel, Gémeo Luís, etc...), considera que o trabalho de ilustração deve funcionar como um complemento para o texto ou, pelo contrário, deve assumir a sua autonomia?
As ilustrações podem ser apenas um complemento do texto, mas, no caso dos meus livros, valem por si e acrescentam valor ao que escrevo. O Sam e o Som sem as ilustrações do Gémeo Luís, O Pai Natal Preguiçoso sem as ilustrações de Alain Corbel, a maior parte dos meus livros das colecções Livros do Dia e da Noite e Era uma vez… outra vez sem o trabalho de José Miguel Ribeiro não seriam lidos da mesma forma.
Na sua colecção Era Uma Vez Outra Vez, optou por recolher e actualizar uma série de histórias tradicionais. Considera que a ponte entre tradição e modernidade é facilmente aceite pelos jovens leitores de hoje?
As histórias tradicionais e contos de fadas abordam grandes questões que são de sempre: a definição da identidade, os afectos, os medos. Ao «actualizar» essas histórias, pretendo aproximá-las dos leitores de hoje situando-as em contextos mais reconhecíveis.
Do contacto que tem com os seus leitores, e depois do lançamento do Plano Nacional de Leitura, que opinião nos pode dar sobre a aceitação da leitura como um bem necessário? Considera que os jovens de hoje lêem mais?
A leitura é reconhecida como um bem necessário, mas há quem pense que é óleo de fígado de bacalhau, quando realmente é um delicioso bolo de chocolate. Muita gente nova tem agora um acesso mais fácil aos livros, descobre o seu sabor e vicia-se para toda a vida.
Num tempo em que se verifica uma utilização massiva de novas tecnologias por parte dos públicos jovens, pensa que o livro manterá a sua importância? Ou será, tendencialmente, substituído por novas formas de comunicação/novos suportes de leitura?
O livro é portátil e fácil de manusear, mas outros suportes e formas de comunicação têm também o seu encanto. A Internet é um recurso fantástico para «folhear» alguns livros, ler críticas, obter informação sobre autores e obras. Os livros passados a filme não substituem os livros, mas alguns são mais interessantes do que os livros que lhes deram origem.
Verifica-se hoje uma profusão de títulos para o público infantil e uma diminuição dos títulos disponíveis na literatura para jovens. Que pensa desta situação? É assim tão difícil escrever para jovens?
Não me parece que faltem livros para jovens. É muito difícil escrever (ponto final).
Porque escreve? E, sobretudo, porque escreve livros para jovens?
Escrevo porque gosto muito das palavras e do que se pode fazer com elas. Escrevo para jovens para que as aparentes limitações criadas por ter escolhido um público específico me dêem a sensação de disciplina e limites de que preciso. Mas na verdade eu escrevo sobre gente novapara toda a gente.