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ALICE VIEIRA

Uma Entrevista Por Mês...
Outubro/Novembro 2006 - Alice Vieira
Entrevista elaborada a partir de questões formuladas pelos leitores

 

Enquanto autora de livros para uma faixa de leitores jovens, que caminhos aponta para se conseguir efectivar uma promoção da leitura mais eficaz? Acha que esse trabalho deve ser realizado junto do público infantil/juvenil ou considera que o trabalho junto dos mediadores de leitura poderá ser o mais eficaz?

O incentivo à leitura tem de começar muito cedo. É ouvindo histórias que as crianças aprendem a gostar de ler. A gostar do som das palavras. Da música da língua. Os anglo-saxónicos têm uma «regra de oiro» que diz: «Dá um livro ao teu filho a partir do momento em que consegues equlibrar, no mesmo braço, o livro e o filho». Ou seja: lê histórias ao teu filho desde muito bebé. Não importa que ele não entenda o significado: importa que ele seja atingido pela magia dos sons.

Tendo em conta o nível de aceitação, por parte de utilizadores jovens, das novas tecnologias, considera que a aposta em livros digitais pode ser uma realidade a curto prazo?

Pode ser uma realidade mas não é a substituição do livro. É outra coisa. E tudo tem o seu lugar. Tocar um livro, cheirar um livro, levar o livro para a cama, adormecer agarrado a ele são experiências insubstituíveis.

De que forma encara o trabalho de ilustração nas suas obras? Pensa que uma melhor ilustração deve complementar o texto ou, por outro lado, abrir novos caminhos para o leitor?

A ilustração é imprescindível nos álbuns que se destinam a leitores de faixas etárias mais baixas. A partir da adolescência, a ilustração não me parece tão necessária. E tudo depende do texto que se ilustra. Há autores que requerem um determinado tipo de ilustração a que não se pode fugir muito. Mas – e isto é uma opinião perfeitamente pessoal e não muito em consonância com o que hoje se faz – penso que a ilustração de um livro deve complementar esse livro. Às vezes receio que se encare a ilustração de livros infantis como uma plataforma onde todas as experiências são possíveis.

Que diferenças encontra entre os seus leitores de há vinte anos e os de hoje?

Não estou muito optimista. Em relação a isso digo apenas que, há vinte anos, eu ia com o meu livro Rosa, Minha Irmã Rosa aos meninos dos 3.º e 4.º anos. Hoje vou habitualmente aos 6.º e 7.º e as leituras que se fazem não são muito diferentes. Foi isto que mudou nestes anos. Infelizmente.

Tendo passado pela redacção de jornais antes de iniciar uma carreira como escritora, que recordações guarda desse período? E como encara o jornalismo que hoje se pratica?

Os jornais continuam na minha vida: sou jornalista profissional, no activo, apenas mudei de regime (agora sou, em bom português, «free-lance»). Do tempo em que ainda estava todos os dias na minha banca (e que ainda coincidiu com a minha vida durante 11 anos) guardo as melhores recordações. Os jornalistas ainda eram gente, ainda tinham hábitos de solidariedade, ainda tinham – e desculpem usar uma expressão tão fora de moda - «amor à camisola». O jornalismo não era um emprego das 9 às 5: era a nossa vida. Hoje, a vida mudou muito, as condições de trabalho também, e o jornalismo é outra coisa. Não digo que seja melhor nem que seja pior. É outra coisa. E se calhar devia ter outro nome. Mas, como em todos os tempos, temos hoje grandes jornalistas e outros que ainda nem aprenderam a escrever.

Que experiências retira do contacto com os alunos quando visita escolas?

Como conheço o público para quem escrevo se não contacto com ele? Os jovens desta semana já são diferentes dos jovens da semana seguinte. O calão jovem muda de um dia para o outro. As suas preferências mudam de um segundo para o outro. Tenho de os «sentir» para poder construir personagens verosímeis.

Como encara o panorama da Literatura para Jovens hoje em dia?

Houve um tempo em que se abusou do género detectivesco-policial; agora abusa-se do género bruxo-fantasmagórico-esotérico. Há-de passar.

A Alice tem escrito também algumas obras para o público adulto. Que diferenças se encontram num e noutro registo? Situam-se ao nível da linguagem, do conteúdo ou em ambos?

Assim como uma criança não é um adulto em ponto pequeno, assim também os livros de crianças não podem ser livros de adultos em ponto pequeno. Embora pense que não se deve utilizar uma linguagem pobre e redutora na escrita para os mais novos, é evidente que o tipo de escrita para adultos é outro. Posso até falar dos mesmos assuntos, mas utilizando outro tipo de registo. De qualquer modo, a escrita para jovens tem de ser sempre de grande qualidade literária. Que é exactamente o contrário da «literatice» que, infelizmente, ainda abunda por aí. Um bom livro para crianças e jovens agrada sempre a um público adulto.


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