Pesquisar:
 
Página Inicial
A Editora
Catálogo
Mapa do Sítio
Ajuda
 
 
Ler +
Livros recomendados
Jardins de Infância
1.º Ano
2.º Ano
3.º Ano
4.º Ano
5.º Ano
5.º e 6.º Anos
6.º Ano
7.º Ano
7.º, 8.º e 9.º Anos
Natal
Corpo Humano / Saúde
Natureza / Defesa do Ambiente
Feiras do Livro
Feira do Livro de Lisboa
Feira do Livro do Porto
Feira do Livro online
UAL 2007
UAL 2007
Premiados
Livro Infantil
Sem. do Livro Infantil
2 de Abril - Mensagem do IBBY
Arte Portuguesa
Nova colecção
Lista de obras
Crítica
Pré-publicações
Medeia
O Outro Pé da Sereia
Lavrar o Mar
Os da Minha Rua
Entrevista
Gonçalo M. Tavares
António Borges Coelho
Fernando Correia
Alice Vieira
Ana Saldanha
Ondjaki
30º Aniversário
Universo Caminho
Os Nossos Autores
Os Prémios
No estrangeiro
A Caminho em Números...
A nossa casa
Sessão de Aniversário
Sugestões
Dia Mundial da Poesia
Dia do Pai
Dia Mundial do Teatro
Dia Internacional do Livro Infantil
Dia Mundial da Música
Natal 2006 - Sugestões
Questionário
Questionário
LAVRAR O MAR

Neste novo título de Daniel Sampaio, o autor salienta a decisiva importância de uma infância organizada à volta do amor e da disciplina, como garante de uma adolescência saudável; estimulam-se novas formas de diálogo entre pais e filhos, sem esquecer que a decisiva palavra tem de caber aos mais velhos; e dão-se numerosos exemplos de possíveis conflitos quotidianos como os horários, os dinheiros, os prémios e os castigos, a Internet, o sexo, o álcool e as drogas. Escrito de forma clara e acessível, mas sedimentado numa vasta experiência do autor no trabalho com adolescentes, Lavrar o Mar é uma obra indispensável a pais e educadores e um oportuno momento de reflexão para os mais jovens.





Lavrar o Mar. Um novo olhar sobre o relacionamento entre pais e filhos
Daniel Sampaio
Colaboração de Eulália Barros

Capítulo 7

Por uma nova ideia para a relação
entre pais e filhos adolescentes

Os pais de hoje perdem-se, com frequência, no mar desconhecido do relacionamento com as suas crianças e os seus adolescentes: este foi o ponto de partida para escrever este livro. Como procurei demonstrar, não se trata de um problema de Psiquiatria ou de Psicologia, mas de uma questão de Educação. Por essa razão, são escassas as referências que faço aos problemas de Saúde Mental (ao contrário de outras obras minhas, onde tratei, entre outros, de temas como a depressão e o suicídio, a anorexia nervosa e a psicose) e numerosos os apelos a novas formas de educar e de compreender as questões da família.
Os pais dos nossos dias estão cheios de dúvidas. Nunca houve tanto interesse pelos filhos, nem existiu outrora tão grande preocupação em acertar. Exemplos que se multiplicam nos média sobre pais que maltratam os filhos não conseguem fazer esquecer a convicção, sustentada por muitos estudos, de que os pais actuais estão atentos e, na sua maioria, procuram fazer o melhor possível. Então por que razão se multiplicam as consultas de Psicologia para jovens, se publicam manuais para "socorrer" pais de adolescentes e se considera a juventude causa de tanta perturbação? Como poderão os pais "lavrar" este mar, descrito como cada vez mais tumultuoso?
Se analisarmos o discurso mais frequente sobre o tema, compreenderemos melhor a perplexidade e indecisão de tantos educadores. A segunda metade do século XX foi pródiga em lançar a confusão. Depois da crítica aos métodos educativos bárbaros do início do século passado, a luta pelos direitos das crianças e dos jovens permitiu que os mais novos pudessem expressar os seus pontos de vista e chamou a atenção dos pais para a necessidade de considerarem os filhos como seres independentes dos progenitores, capazes de sentirem e emitirem opiniões diferentes das dos familiares. Os anos oitenta reforçaram a comunicação entre pais e filhos, através de uma aproximação das gerações (com as crianças e os adolescentes a serem capazes de exprimir ideias sobre assuntos até aí proibidos), ao mesmo tempo que crescia a denúncia para situações de abuso e exploração infantis, até aí ignoradas de muitos. Os anos noventa são caracterizados pelo notável avanço da neurobiologia, com contribuições relevantes para a compreensão de muitas perturbações infantis e para modificações no seu tratamento, com destaque para novos medicamentos utilizados pela primeira vez em crianças e adolescentes. Foi uma época em que muitos pais acreditaram que não era preciso terem uma acção decisiva: para os filhos saudáveis, bastava uma orientação ocasional para que em breve retomassem o rumo pretendido; para os filhos doentes, precisavam de ler sobre patologia, ou enviá-los rapidamente para o médico ou para o psicólogo. Depressa, todavia, compreenderam o engano: a maioria dos conflitos caseiros nada tem a ver com questões de Saúde Mental, os tratamentos psicológicos são caros ou inacessíveis e prestam muito pouca atenção à família, os livros de auto-ajuda desfilam uma série de lugares-comuns e propõem medidas tão simples que os deixam a pensar o filho como um caso desesperado e sem qualquer solução.
Quando viviam as suas dúvidas, começaram a descortinar, primeiro de uma forma insidiosa, depois sem qualquer reserva, apelos à "autoridade" de pais e professores, como se o problema residisse na sua falta de força ou no medo de enfrentar os filhos. Em artigos de jornais ou em programas de televisão, os pais são advertidos para as consequências funestas da sua falta de pulso e desacreditados, aos olhos da opinião pública, pela escassez evidente de determinações claras em relação aos seus descendentes.
Não há dúvida de que existe uma diminuição de convicção, de rumo e de decisão em muitos progenitores de hoje, como ilustrei em vários capítulos deste livro. A solução não reside, todavia, na recuperação de medidas autoritárias do passado nem em apelos a intervenções mais ou menos musculadas na família e na escola. Quem contacta com frequência com crianças e jovens compreende logo que já não é possível obter resultados através de um progressivo endurecimento de proposições ou de directrizes não explicadas. Com estas actuações (já visíveis em alguns sectores) apenas conseguiremos respostas mais agressivas por parte dos mais novos, ou rupturas definitivas na possibilidade de entendimento entre as gerações.
Não esqueço que os últimos anos demonstram, em muitos casos, uma inaceitável mudança na relação entre os adolescentes e os seus interlocutores mais velhos. A ausência de limites, o desprezo pelas regras, a linguagem sem freio, por vezes mesmo a agressão física a pais e professores, visíveis em muitos locais de encontro de gerações (como a casa, a escola ou o café do bairro), são a prova de que a hierarquia saudável do relacionamento se alterou para pior. Quem de bom senso e honestidade mínima pode, contudo, defender que o problema se resolve com mais repressão dos adultos? Se um aluno empurra um professor, a resposta será bater com mais força? Se um filho solta uma obscenidade na conversa com a mãe, o correcto será descer ao mesmo nível? Julgo que não. O caminho é mais complexo, mas possível. Para termos melhores adolescentes, com menos problemas no seu interior e mais capacidade de relacionamento com os que os rodeiam, temos de fazer muitas mudanças na maneira de pensar e de agir face aos jovens.
Neste último capítulo, procuro condensar as principais linhas de força de um novo paradigma de relacionamento entre pais e filhos, base fundamental para qualquer mudança relacional.
Comecemos por pensar que nós, adultos, mudámos muito. A pressão económica, a dificuldade no emprego, a instabilidade do contrato conjugal com o aumento dos divórcios, as frequentes mudanças de casa e a diminuição do suporte das redes relacionais (falta de solidariedade e de convivência com vizinhos, indisponibilidade frequente da família alargada), o fim das utopias e a invasão pelos governos e média nos comportamentos individuais e familiares são apenas alguns exemplos de como a adultícia se modificou nos últimos cinquenta anos. Quem poderia esperar que essas alterações não tivessem repercussões nas crianças e nos adolescentes? Que fazer então?

MUDAR A NOSSA IDEIA SOBRE A ADOLESCÊNCIA

Em primeiro lugar, questionar por completo o tradicional conceito da adolescência. Perceber que muitas ideias sobre este período são baseadas em observações de técnicos nos seus gabinetes, em presença de jovens que os procuram porque estão perturbados (ou porque pais e professores assim o entendem). Quando entrevistamos gente nova no seu ambiente natural, depressa constatamos que a grande maioria se entende bem com pais e irmãos, gosta da escola e respeita os professores, não está dependente de drogas nem de álcool nem usa a violência por sistema. Nunca é de mais insistir neste ponto, porque a patologização do conceito de adolescência foi uma das mais importantes causas para a considerarmos uma etapa indefinida, em que não ser estranho seria uma situação inesperada. A preocupação em tratar os adolescentes perturbados teve ainda como consequência o abandono de uma abordagem global da questão: na ânsia de compreendermos uma minoria, abandonámos a tentativa de compreensão de todos.
Depois, devemos também contestar a ideia de que a adolescência é uma etapa de transição entre a infância e a idade adulta. Sei que é mais difícil apagar este ponto de vista, mas é fundamental. Quando definimos como uma transição o período que se inicia na puberdade e termina com a formação da personalidade, estamos desde logo a desresponsabilizar os adolescentes. Quem quer assumir compromissos se for classificado a todo o momento como irreverente, irresponsável, na idade da mudança, ou sem capacidade para tomar decisões, pelo facto de ainda não ser adulto? O que é comum a todos os adolescentes são as alterações biológicas da puberdade e o crescimento físico que daí resulta; a dimensão psicossocial depende das características de cada um, é verdade, mas é sobretudo determinada pelo modo como os adultos consideram este período. A observação demonstra que existem jovens que vivem até muito tarde em casa dos pais, a par de outros que saem muito cedo para trabalhar; e mostra um número considerável a iniciar cedo a sua vida sexual, enquanto outros continuam a defender a virgindade até ao casamento. Se as hormonas são segregadas em todos e o mercado de trabalho não está fácil para ninguém, não serão os adultos também responsáveis por estas diferenças? Do meu ponto de vista, a noção tão divulgada de que a adolescência é uma espécie de transporte de ligação entre o ponto de partida, que é o "mundo maravilhoso" das crianças, e o "porto definitivo" da vida adulta, apenas serve para adiar a resolução do problema, para que "passe com a idade" sem que tenhamos muito a ver com isso. Contestemos, pois, esta ideia da adolescência como um autocarro que transporta os jovens desde crianças até serem adultos, um transporte onde poderão fazer todos os disparates só porque estão na "idade difícil" e no qual os mais velhos precisam de aguentar a "viagem". Precisamos de desenvolver um novo conceito que considere os adolescentes como jovens adultos que, embora inexperientes, são capazes de tomar decisões sobre muitos assuntos (sobretudo acerca dos que lhes dizem respeito) e de assumir as consequências das suas acções. Neste sentido, seria bom que a família e a escola dessem responsabilidade crescente a partir dos catorze anos, em vez de criarem "estratégias" ou "serviços" para adolescentes em crise. Proponho, portanto, que a adolescência não seja uma preparação para a adultícia, mas o verdadeiro início da vida adulta.

INTERVIR NA INFÂNCIA

Não me esqueço do que afirmei antes: a maior parte dos chamados problemas da adolescência tem a sua raiz na infância. Esta constatação, sedimentada numa experiência pessoal de trinta anos e em numerosos estudos, deve levar a uma imediata conclusão: a infância tem de ser valorizada, para que a adolescência possa decorrer com satisfação para o jovem e para os adultos que o rodeiam. Uma observação rápida permite concluir que isto não está a ser feito entre nós: a falta de condições das famílias para terem filhos, a insuficiente protecção à maternidade, o número de crianças abusadas ou negligenciadas, a precocidade com que são expostas ao álcool ou às drogas, a ausência de um apoio estruturado aos pais em dificuldades, são alguns exemplos do muito que falta fazer.
Para alterarmos esta situação, teremos de ajudar os pais a valorizar o período da infância dos seus filhos. A protecção da vida infantil deve começar pela interiorização, por parte dos progenitores, da importância das relações precoces, tal como descrevi noutro capítulo. A investigação recente tem demonstrado que a selecção dos relacionamentos na juventude e na idade adulta tende a reflectir as vivências da vinculação da criança; e que esta processa a informação acerca de si própria e do seu ambiente a partir da sua relação com os adultos significativos. Deste modo, se a criança recebe dos pais mensagens ambíguas ou contraditórias, tende a guardar esses conteúdos negativos para si própria, consolidando um autoconceito desfavorável. No mesmo sentido, sabe-se hoje que certos pais, por vezes sem terem consciência, reforçam os comportamentos problemáticos dos filhos pequenos, quer pela excessiva atenção parental quer pela crescente intervenção com comentários desagradáveis (muitas vezes este padrão permanece até à adolescência, ou é reforçado neste período). Segundo Dadds, os pais ficam presos num círculo vicioso em que a criança com um problema de comportamento se torna um foco importante (e talvez dominante) à volta do qual a família interage. Estão também demonstradas as influências negativas que as situações de conflito conjugal, depressão parental, pobreza, comportamento anti-social dos pais e abuso e negligência têm no futuro das crianças, a imporem uma acção inadiável: a ajuda continuada aos pais em dificuldades. Esta acção deve concentrar-se em intervenções organizadas de apoio aos pais, sedeadas nos centros de saúde, nas autarquias ou em organizações não governamentais bem inseridas na comunidade, tendo como prioridade as situações de disfunção atrás referidas. A maioria dos pais deseja ser ajudada, como se demonstra pelo interesse manifestado em muitas sessões que tenho organizado sobre a família; pretendem ser valorizados pelos filhos e ouvir dizer que não fracassaram por completo; e querem sobretudo encontrar um espaço onde possam expor as suas dúvidas e perplexidades, sem serem alvo de crítica fácil ou de condenação apressada.
O trabalho com os pais pode ser dinamizado por um técnico da área psicossocial, por um professor ou por um médico de família, entre outras possibilidades. Interessa que seja alguém com disponibilidade, alguma experiência de vida, o gosto de trabalhar com famílias, nunca uma pessoa que massacre os pais com pressupostos teóricos longe da realidade que eles estão a viver. É crucial que a mudança pretendida seja consistente com aquilo que os pais já são e coerente na procura comum de um caminho a percorrer. Desde muito cedo as famílias precisam de ser tranquilizadas sobre a imperfeição inerente à parentalidade: todos os pais erram e podem mudar de ideias, não vem daí nenhum mal ao mundo. A minha avó costumava dizer que só não muda de opinião quem não a tem, por isso é bom que os pais se compenetrem de que devem ter convicções, mas que as podem alterar sempre que uma reflexão aprofundada o justifique.
Uma acção concertada de apoio aos pais potencia a espontaneidade na sua relação com os filhos, não fornece indicações a partir das aulas teóricas de um curso ou dos capítulos de um manual. Sou crítico das "escolas de pais", onde técnicos debitam discursos teóricos sem ligação com a vida, ou em que pais "iluminados" indicam, por vezes com arrogância, o caminho a seguir. O que é fundamental é mobilizar a mudança, aumentar a sua capacidade de intervenção, capacitá-los para compreender a especificidade de cada filho.
Quando se é pai de uma criança, é fundamental perceber, como já afirmei várias vezes, que a ligação profunda com o filho é a base segura para que ele seja capaz de evoluir, tanto no plano cognitivo como no campo afectivo. Mas, como muitos pais depressa compreendem, o amor é decisivo mas não é suficiente. Torna-se necessário ajudar a criança a consolidar uma visão positiva de si própria, possibilitar a formação de um autoconceito que lhe permita progredir na sua autonomia e desenvolver, à medida que cresce, novas capacidades. Nem sempre os pais têm as condições necessárias para uma vida com um mínimo de estabilidade, mas é sempre possível ajudá-los a robustecer a sua capacidade de educar.
Algumas mudanças na relação entre os pais e as crianças podem ser conseguidas sem grande esforço. Se possibilitarmos a troca de experiências com outros pais, verificaremos rapidamente como as alterações positivas começam a surgir. As famílias têm competências diversas, que trocam entre si: um pai pode ter problemas com o despertar dos filhos, mas ser muito competente na hora das refeições, a sua experiência pode ser partilhada com uma mãe com outras dificuldades e com outros sucessos. Uma família isolada em breve é disfuncional, um agregado familiar em ligação com outros pode encontrar soluções.
Procuremos ajudar os pais a desenvolverem com as crianças uma relação de empatia calorosa, mas onde estão sempre presentes a disciplina e o sentido do outro. Recordo aqui o livro de Daniel Marcelli e o que escrevi no Capítulo 2. A autoridade constrói-se na relação, o respeito baseia-se na consideração mútua. Um pai com autoritarismo é um progenitor que há muito perdeu a autoridade, pois não foi capaz de ajudar a criança a estabelecer limites internos, não fomentou a autodisciplina e o autocontrolo (já vimos como isto se agrava na adolescência). As crianças adoram a ordem, a rotina e a organização: gostam do ritual do banho, apreciam os brinquedos arrumados, preferem, antes do deitar, uma sequência organizada a directrizes que mudam todos os dias. Se os pais, desde muito cedo, proporcionarem um ambiente organizado, com regras claras e responsabilidade crescentes, estarão a favorecer a autonomia e a consolidar a auto-estima dos seus filhos.
Retomemos a tradição oral dos nossos avós. Sei que é difícil: depois de um dia de trabalho, pode apetecer mais ver um programa de televisão do que contar uma história a um filho, mas vale a pena: para além da proximidade relacional que esse momento implica, existe a possibilidade de fazer com que a criança se possa exprimir em termos afectivos. As crianças-problema não o fazem no seu quotidiano: ou ficam muito tensas e caladas, ou persistem numa conversa rudimentar, onde está ausente a emoção. Ao ouvir a narrativa do pai, para depois a recontar com as suas próprias palavras, a criança melhora a sua capacidade de expressão emocional e aumenta a sua competência interpessoal.
Sempre que possível, os pais deverão diminuir a crítica e fazer uma apreciação estimulante. O criticismo parental sistemático fomenta a retroacção agressiva ou a retirada depressiva, não leva à melhoria do relacionamento. Numa criança, a realidade dos adultos não é fácil de descortinar, por isso testa a reacção dos mais velhos. Se a resposta ao seu comportamento é quase sempre de natureza crítica, não é de esperar a maturação emocional desejada.
Não esqueçamos as tarefas domésticas. Apesar de algum progresso feito nas questões de igualdade, esses trabalhos continuam a sobrecarregar as mulheres. No trabalho com os pais, convém ultrapassar a velha ideia de que os homens se devem preocupar com a disciplina em casa e com o seu trabalho no exterior, e deixar para as mulheres as questões afectivas e a lida da casa. Na prática, acontece muitas vezes que as mães se esgotam e os pais sabem pouco sobre os filhos. Por isso, ajudemos o casal a partilhar melhor as tarefas e responsabilizemos as crianças por actividades adequadas à sua idade (arrumar o quarto, pôr a mesa, colaborar no supermercado, por exemplo). Esta proposta não é difícil e a mudança conseguida tem importância para a adolescência.
É na infância que a família estabelece os primeiros contactos com a escola. As cartas que troquei com Eulália Barros, transcritas no final deste livro, são elucidativas de alguns dos dilemas do ensino actual. Muitos professores se queixam de que os pais não aparecem, muitos encarregados de educação lamentam só ouvir críticas. Precisamos de melhorar a comunicação entre a escola e a família da criança. Os pais aparecerão mais na escola quando tiverem a certeza de que a sua presença é útil e forem ouvidos com atenção e respeito, os professores trabalharão melhor quando conseguirem cooperar com os pais. A minha experiência tem demonstrado que os encarregados de educação aparecem mais quando são tratados temas sentidos por todos (segurança, alimentação), do que em situações mais complexas para a família (sexualidade, drogas). A melhor forma é proceder por pequenos passos e a partir de iniciativas concretas, que envolvam os diversos actores (nas famílias monoparentais e sempre que possível, incluir o progenitor que não está em casa). Se a família com crianças considera prioritária a participação na vida da escola, é provável que esse padrão de cooperação se mantenha durante a adolescência.
Não posso deixar de, mais uma vez, insistir na necessidade de adiar a gratificação, em muitas situações do quotidiano da vida familiar. Estamos, em muitos casos, a liquidar o desejo das crianças e a tornar definitiva uma omnipotência infantil, com as consequências para a juventude que já referi noutras páginas. Nesta linha, os pais devem dizer que não a muitas solicitações e aproveitar momentos com significado para oferecer um presente ou para prometer uma recompensa. As birras de muitas crianças de hoje não são provocadas pela falta de qualquer coisa no seu interior, mas pela ausência de um objecto do mundo exterior, quer seja um brinquedo ou um alimento preferido. Compete aos pais estarem atentos aos desejos e interesses dos filhos, mas também lhes diz respeito ajudá-los a estabelecer prioridades e a esperar pelo momento oportuno para satisfazer os seus gostos.
Sabe-se, desde os primórdios do movimento da terapia familiar, que a partilha de momentos significativos da vida da família organiza o quotidiano e favorece o sentimento de pertença dos seus membros. Torna-se, por isso, essencial encorajar os rituais familiares, reforçando os que já existem e ajudando a família a construir novas ocasiões de convívio. Esses encontros podem organizar-se à volta de refeições especiais (por exemplo, o lanche ajantarado de domingo), em torno de um programa de televisão visto em conjunto, a propósito da leitura de um livro ou de um jogo de computador, ou fazerem parte de comemorações de datas com significado para a família (Natal, Páscoa, aniversários de todos).
Quando se esquecem dias especiais, algo vai mal. Foi o que aconteceu com a família do Manuel, que me procurou muito triste porque o rapaz, com dezasseis anos, se tinha "esquecido" dos anos do pai e por isso tinha combinado um jantar com amigos. Comecei por perguntar se o tinham deixado sair, e porquê, a resposta foi uma das que, infelizmente, encontro cada vez mais: "Mas alguém tem mão neles, hoje em dia? Quando o irmão mais velho lhe chamou a atenção (porque nós, pais, já desistimos...), respondeu vai-te f...., tudo por claro, à frente de todos!"
Não era só o Manuel que falhava os rituais. Desde há muito que não passavam férias ou fins-de-semana em conjunto e a única comemoração partilhada era o Natal em casa da avó. Cada um parecia viver para si próprio, fechado nos respectivo quarto, sem saber como decorria a vida dos outros. Numa família com três filhos, impressionava como tinha sido possível ficarem tão afastados, a viverem como desconhecidos. Na primeira sessão de terapia familiar, comecei por falar do que entendo como inegociável: um filho não pode usar linguagem obscena em nenhumas circunstâncias, e viver em família pressupõe pensar nos outros. Depois, foi possível trabalhar aquilo a que o meu mestre americano Carl Whitaker chamava "nacionalismo familiar", como já vimos um sentimento de pertença ao grupo, construído por muitos anos de vida em comum e estruturado a partir do passado. Nesta família, o "orgulho nacionalista" estava perdido e ninguém parecia ter-se dado conta. Restabelecemo-lo através de um trabalho conjunto de organização de novas rotinas e rituais, de acordo com a fase do ciclo vital da família (pais com filhos adolescentes). Foi deveras importante a participação da avó materna, pela relação muito afectiva que mantinha com os netos. A partir de encontros nos fins de tarde de domingo, a família reencontrou algum prazer no convívio e na terapia foi então possível abordar outros temas, o que não era possível no início. O fortalecimento dos laços intergeracionais, com a participação da família alargada na procura de soluções, é sempre um recurso que quem trabalha com pais não pode esquecer. Sem elos que nos liguem ao passado e sem melhorar a capacidade de todos se ouvirem, é difícil conseguir resultados.

RE-LIGAR PAIS E FILHOS NA ADOLESCÊNCIA

Mesmo quando se conseguiu uma boa comunicação durante a infância, novas questões emergem na adolescência. Um período infantil com forte ligação entre pais e filhos, numa casa com regras, disciplina e ausência de gratificação excessiva, não garante em absoluto uma juventude livre de queixas, embora seja um importante ponto de partida, como já escrevi.
O mundo juvenil recebe hoje muitas influências exteriores à família e não existem, em muitos casos, espaços familiares estáveis sob o ponto de vista emocional. Os divórcios, os horários de trabalho sem respeito pela vida pessoal, o desemprego, a falta de suporte social, o exagero no tempo gasto com a Internet, são alguns exemplos de uma vida doméstica onde falta tranquilidade para educar e crescer. As dificuldades, todavia, não nos podem fazer desistir, pois a investigação demonstra com clareza que os jovens que melhor evoluem são aqueles que vivenciaram uma boa relação com os seus familiares.
Muitos pais dizem que estão afastados do dia-a-dia dos seus filhos. É compreensível: o mundo adolescente está hoje muito dependente do grupo de amigos, do que se passa na escola, das culturas juvenis e dos encontros na Internet. Se os pais sentem essas influências exteriores, a solução é ir conhecê-las.
Em primeiro lugar, conhecer os amigos dos filhos e ajudá-los a fazer uma selecção cuidadosa. Quando os adolescentes escondem os seus contactos não é bom sinal. É decisivo que os pais conheçam os nomes e alguma coisa sobre as famílias dos amigos, saibam onde moram e quais são os hábitos do grupo. Se tiverem a percepção de que o filho em causa está demasiado dependente do grupo e em particular do seu líder, convém discutir abertamente o assunto (vimos atrás a importância do melhor amigo no consumo de álcool e drogas). Se, pelo contrário, não surge ninguém e o adolescente está muito sozinho, os pais também devem intervir, na tentativa de facilitar contactos com outros jovens da mesma idade (às vezes, primos e filhos de amigos podem ser úteis); a opinião da Directora de Turma é também importante, pois se um jovem não está isolado na escola é um bom sinal: nem todos privilegiam um grupo juvenil organizado fora do ambiente escolar.
Depois, é bom não deixar tudo para a noite e manter a ligação entre pais e filhos durante o dia. Telemóveis, e-mails, recados deixados em pedacinhos de papel autocolante mantêm o contacto e permitem uma certa orientação à distância. No caso de progenitores que saíram de casa após a separação, esta é uma boa maneira de conhecerem o mundo dos mais novos, para que o jantar quinzenal no restaurante do costume não seja um tormento para os próprios e para os senhores da mesa ao lado. Quando possível, e se o adolescente está a fazer um esforço para melhorar a comunicação, é bom aparecer em casa com uma pequena lembrança: uma revista sobre um assunto que lhe interessa, umas carteirinhas de cromos de futebol para os mais novos, um chocolate preferido. Estas pequenas acções não sobrecarregam o orçamento familiar e fazem com que o jovem compreenda que o pai ou a mãe pensaram nele durante o dia. Devemos ajudar o adolescente a proceder exactamente da mesma maneira: com a sua semanada, pode ter uma pequena atenção para com os pais e avós; é caso para dizer que não faz mais do que a sua obrigação.
Os pais nunca podem desistir de despertar novos interesses nos filhos adolescentes. Alguns adultos há muito que o deixaram de fazer e assistem, com maior ou menor desespero, a jovens que se arrastam pelos cantos sem qualquer ocupação. Às vezes saem à noite, mas não têm relações significativas com nenhum adulto (para além da família, não se relacionam com professores, treinadores ou pais de amigos), não lêem um livro, escondem o que se passa na escola ou no trabalho e é difícil falar com eles: o seu vocabulário é muito pobre, há um linguajar de calão juvenil de frases entrecortadas num conjunto de atitudes que oscila entre a sobranceria e a hostilidade para com os mais velhos. Nestas situações, é urgente propor ao filho UMA única actividade para a qual demonstre um mínimo de interesse. Se recusa a escola, a solução não é arranjar explicadores e continuar a reprovar, é fazer QUALQUER outra coisa. Se os pais forem firmes, algum interesse acabará por surgir: um emprego temporário, uma actividade desportiva, um curso de línguas ou de informática. Por vezes, estas paragens no deprimente dia-a-dia de alguns jovens permitem uma pausa nos confrontos e possibilitam futuros investimentos. Os pais, contudo, não podem aceitar a primeira proposta: há que analisá-la em conjunto com o filho, averiguar a sua viabilidade e assegurar a sua segurança.
Para melhorar o relacionamento com os seus filhos adolescentes, convém aos pais promoverem uma verdadeira revolução comunicacional. Não é possível continuar a falar como se eles fossem crianças nem discutir como se todos fossem jovens. O que distingue um adulto é a experiência de controlo emocional e a capacidade aumentada de encontrar soluções. Algumas recomendações, não como receitas, mas como ideias para reflectir:

- analise a especificidade do seu filho. Não há dois adolescentes iguais, portanto o que resulta com um pode não funcionar com outro;
- desista da ideia de que a resposta rápida pode ser a melhor solução. Por vezes é melhor esperar um pouco e voltar ao assunto, quando as cabeças estiverem menos quentes e a tempestade tiver amainado um pouco;
- nas brigas entre irmãos, procure não tomar partido e intervenha só em situações limite, quando a segurança de alguém estiver ameaçada. Depois, reúna-se com eles e estabeleça regras para o futuro (exemplo, discutir pode, bater não);
- quando quiser recolher informação, faça perguntas simples e directas, nunca questione sobre motivações profundas ou razões inconscientes. Uma das características dos adolescentes é agir em vez de pensar. Pergunte quem estava na festa, o que lhe disseram na escola, que determinação tomou. Não perca tempo em analisar porquês, nem quandos, deixe isso para um momento de menor tensão;
- evite a escalada simétrica, um padrão interactivo frequente e muito disfuncional no relacionamento pais-filhos adolescentes. Podemos definir esta situação como a repetição, em cascata, de comportamentos muito semelhantes entre as duas gerações, em que o filho (por exemplo) inicia um comportamento agressivo para com um dos progenitores e este responde de imediato, no mesmo tom e com argumentos parecidos. É evidente que, no momento de irritação que estão a viver, o filho depressa amplia a resposta agressiva com uma frase ainda menos respeitadora do que no início, a que a mãe ou o pai vão retorquir com raiva aumentada. Esta sequência pode repetir-se, num jogo sem fim, com os protagonistas em descontrolo crescente e com interacções cada vez mais contundentes para o outro. Fala-se então de escalada simétrica, porque a um determinado comportamento de descontrolo se segue uma resposta caracterizada pela maximização da semelhança. Se sente que esta escalada está iminente, retire-se para pensar, por certo voltará mais tarde com novas ideias e menos zanga. Certos pais estão convencidos de que abandonar por momentos o terreno de luta é sinal de fraqueza, por isso acabam por sucumbir a uma discussão acalorada e fazer tudo o que os filhos pretendem. É bem melhor parar por um momento e voltar mais tarde com renovada firmeza;
- quando quiser mudar um comportamento num filho adolescente, aguarde uma resposta dura, mas não desista. Faz parte das características dos jovens actuais lutarem pelos seus pontos de vista e não aceitarem, sem discussão, uma mudança significativa. Por isso, tem de estar preparado para contra-argumentar com firmeza e negociar a mudança. Esteja atento aos argumentos, mas não recue em questões fundamentais, sobretudo nas que se relacionam com a saúde e segurança. Na negociação, forneça escolhas limitadas, não alargue em demasiado as alternativas.

Toda a família deve considerar que a adolescência é a última oportunidade para os pais se re-ligarem aos filhos, através de tentativas sucessivas para melhorar a comunicação, como acabei de exemplificar. Nem tudo, todavia, se consegue pelo diálogo: em caso de dificuldades na negociação ou em questões decisivas para a saúde e segurança dos mais novos, cabe aos pais tomar decisões. Uma família democrática não é aquela em que a hierarquia foi derrubada, é um grupo de pessoas onde quem tem a última palavra são os mais experientes. Os pais conseguem educar melhor na adolescência se na infância o fizeram com amor e com disciplina, mas nunca é tarde para corrigir um caminho. Se, como proponho neste livro, deixarem de considerar os filhos adolescentes como seres em transição e, pelo contrário, os tomarem como jovens adultos com direitos e deveres, a sua tarefa ficará facilitada. Se, pelo contrário, e como se passa em tantas casas, os pais pedirem responsabilidades sem convicção e continuarem a não insistir na necessidade de os mais novos fortalecerem o sentido do outro, os adolescentes aparecerão cada vez mais como seres imaturos a quem nada é exigido, e os seus familiares permanecerão inquietos e inseguros.
E a escola? Embora noutros livros muito tenha escrito sobre o tema, não quero deixar de o retomar. Num momento em que tanto se discute o ensino em Portugal, numa ocasião em que (tal como na família) surge o debate sobre a autoridade, num instante em que tantas opiniões surgem nos média sobre questões da escola, interroguei-me sobre se alguns dos meus pontos de vista poderiam ser partilhados com professores, na tentativa de também re-ligar a família à escola.
À medida que escrevia Lavrar o Mar, mantive uma permanente correspondência electrónica com a minha amiga Eulália Barros, com quem já tinha colaborado em livros anteriores. A sua dupla condição de professora do ensino básico e de terapeuta da infância garantia, em princípio, a ligação entre a intervenção clínica e o contexto escolar e permitia mais um olhar sobre as crianças e o seu meio, alargando a minha visão, sempre condicionada pela formação médica. A nossa troca de mails foi estimulante e não poderia ficar só entre nós: por isso ofereço agora aos leitores as "Cartas" que escrevemos. Não querem entrar nas nossas discussões?


voltar

 

Notícias
Subscrever boletim
Arquivo de notícias
 

 

Termos e condições | Política de privacidade | Contactos

Copyright © 2010 Editorial Caminho, SA. Todos os direitos reservados