Para comemorar o Dia Mundial do Livro, iniciamos um conjunto de pré-publicações que permitirão aos nossos leitores contactar em primeira mão com algumas obras a editar pela Caminho.
E, para assinalar esta data, apresentamos-lhe a obra Medeia - Recriação Poética da Tragédia de Eurípides, trazida até nós na tradução inconfundível de Sophia de Mello Breyner Andresen.
Esta obra estará disponível nas livrarias a partir do dia 11 de Maio e poderá ser vista em representação no Teatro Nacional Dona Maria II (Sala Garrett), estreando a 3 de Maio de 2006, com encenação e dramaturgia de Fernanda Lapa (um projecto de Fernanda Lapa e António Lagarto).
Medeia Recriação Poética da Tragédia de Eurípides Tradução de Sophia de Mello Breyner Andresen Prefácio de Frederico Lourenço
Medeia foi representada no ano de 431 a.C. Apesar da força que ainda hoje nos transmite, Eurípides conseguiu com esta tragédia, considerada por muitos críticos a sua melhor obra, apenas o terceiro lugar. Euforion obteve o primeiro prémio e Sófocles o segundo. Como noutras ocasiões, o público escandalizou-se perante as paixões humanas dos heróis de Eurípides. A trama da obra insere-se no ciclo mítico dos Argonautas, que, comandados por Jasão, partem para os confins do mar Negro em busca do velode ouro. Medeia, filha do rei da Cólquida, enamora-se loucamente por Jasão e contribui de forma decisiva para o êxito da empresa do seu amado. Ligada no mito à magia e a práticas pouco civilizadas, Medeia actua sem vacilar a favor dos interesses de Jasão e assume inclusivamente o assassinato e o despedaçamento do seu próprio irmão. De regresso a Iolco, Medeia aniquila Pélias, que tinha usurpado o trono a Jasão; em consequência disso, o casal refugia-se em Corinto. É nesta cidade que se situa a trama da tragédia. A obra abre com um monólogo da aia de Medeia, que descreve a triste situação da sua ama, preterida por Jasão em favor da filha do rei Creonte. O preceptor entra em cena e conta à aia a decisão real de desterrar Medeia. Esta lamenta-se do seu infortúnio e da traição de Jasão; o coro e a aia descrevem os sentimentos de Medeia e exprimem os seus temores sobre o futuro imediato. No primeiro episódio Medeia entra em cena e dirige-se ao coro com um lamento sobre a desgraça de ser mulher. A seguir, Creonte apresenta-se perante Medeia e comunica-lhe a sua decisão de a enviar para o desterro. O coro lamenta a perda do valor dos juramentos e o desterro de Medeia. O segundo episódio inicia-se com a entrada em cena de Jasão, que justifica o seu casamento com Glauce, a filha do rei de Corinto; Medeia não aceita os seus argumentos e critica a sua ingratidão pela ajuda que ela lhe deu no passado. Após este confronto, o coro canta o violento poder de Afrodite. Com o aparecimento de Egeu, rei de Atenas, começa o terceiro episódio. Medeia comunica-lhe a sua triste situação e pede-lhe que a acolha na sua cidade; Egeu promete-lhe a sua ajuda. Quando Egeu sai de cena, Medeia revela ao Corifeu os seus planos. Após esta confissão, o coro exalta a cidade de Atenas e pede a Medeia que não mate os seus filhos. No quarto episódio Jasão entra de novo em cena e mantém uma conversa com Medeia, que finge estar arrependida e disposta a conquistar o perdão de Glauce através de belos presentes. Jasão acredita em Medeia e sai de cena. Após este encontro o coro lamenta a morte iminente dos filhos de Medeia e a dor desta. O último episódio começa com o diálogo entre Medeia e o preceptor, que assegura que Glauce aceitou os presentes. Um mensageiro, que aparece então em cena, descreve em pormenor o triste fim de Glauce e de seu pai, Creonte, mortos pelos presentes oferecidos por Medeia. O coro, aterrado, anuncia a acção inevitável de Medeia contra os seus próprios filhos. A obra termina com o encontro entre Jasão e o coro, que conta ao pai a sorte dos seus filhos, e com um terrível confronto entre Jasão e Medeia marcado pelo ódio recíproco. Eurípides serve-se de um mito muito conhecido, cujos personagens são já mencionados em Homero e Hesíodo, para exprimir o conflito entre o impulso irracional e o compromisso social, que por vezes impõe a renúncia aos desejos individuais em nome das exigências do grupo. A cega paixão de Medeia impede-a de aceitar a traição do seu amado e empurra-a a privá-lo de toda a descendência, fundamento da integração social no mundo grego, mesmo que isso signifique a perda do que lhe é mais querido, os filhos. A tortura da dúvida que antecede a vingança e o dilaceramento perante a dor iminente adquirem uma forma magistral nos monólogos de Medeia que salpicam a obra, e de que lhe damos a seguir o mais célebre, na tradução de Sophia.
(Traduzido e adaptado de Obras Completas de Ésquilo, Sófocles e Eurípides, Cátedra, Madrid, 2004)
MEDEIA
Ó meus filhos, meus filhos, agora tendes uma pátria, uma morada onde podeis habitar para sempre, privados da vossa mãe, abandonando a vossa mãe e a sua dor. E eu parto para o exílio numa terra estrangeira, parto sem me ter alegrado em vós, sem ter visto cumprir-se a vossa felicidade, antes de vos ter dado uma esposa, antes de ter enfeitado o vosso leito nupcial, antes de ter erguido os archotes da vossa boda. Ai de mim como foi grande o meu engano! Foi em vão meu filhos que vos criei, em vão que penei, em vão que fui rasgada pela dor e pela prova cruel do parto. Ai de mim! Quantas esperanças eu tinha posto em vós! Esperava que os meus filhos fossem o sustento da minha velhice. Esperava que, depois de morta, as suas mãos me amortalhassem e enterrassem piedosamente, segundo a sorte que os mortais invejam. Agora extinguiu-se esse doce pensamento. Privada de vós arrastarei uma vida feita de tristeza. E os vossos olhos tão amados nunca mais hão-de ver a vossa mãe: porque tereis partido para outra existência. Ai de nós! porque virais para mim o olhar, meus filhos? Porque voltais para mim esse último sorriso? Ai, sofrimento e desgraça! Que posso eu fazer. Mulheres, quando vejo o olhar brilhante dos meus filhos, a minha coragem sucumbe. Não, não posso. Adeus, antigos projectos. Vou levar os meus filhos para longe deste país. Para que hei-de eu, para torturar o pai com a desgraça deles, multiplicar a minha desgraça? Não, eu não. Renego o meu projecto. Mas como! Hei-de ficar condenada à troça deixando os meus inimigos sem castigo? Não, tenho de ter audácia. Não posso ser covarde e abrir a minha alma à fraqueza. Entrai no palácio, meus filhos.
(As crianças entram no palácio e Medeia ergue os braços para o sol)
Que aquele a quem o céu proíbe que assista ao meu sacrifício se afaste. A minha mão não vai tremer. Ai de mim! Não, meu coração, não cumpras tu esse crime. Deixa-os, desgraçada! Poupa os teus filhos. Longe daqui viverão comigo e serão a minha alegria. Juro pelos vingadores subterrâneos do Hades que jamais entregarei os meus filhos aos insultos do inimigo. Têm de morrer e já que têm de morrer serão mortos por mim que os pus neste mundo. É uma coisa inevitável, sem regresso. Pois estou certa que já a jovem princesa, com a coroa poisada nos cabelos, agoniza entre os seus véus. E já que tenho de seguir o caminho da mais extrema desgraça e que tenho de os conduzir por uma via ainda mais funesta, quero dizer adeus aos meus filhos.
(Faz um sinal e os filhos voltam a aparecer)
Meus filhos, dai-me a beijar a vossa mão direita. Ó mão adorada, ó boca adorada, rosto cheio de nobreza dos meus filhos! É a felicidade que eu vos desejo, mas lá, fora daqui. Aqui o vosso pai roubou-vos a felicidade. Ó doce abraço, pele macia, respiração perfumada dos meus filhos! Afastai-vos, afastai-vos.
(Afasta-os de si e faz-lhes sinal para que entrem em casa)
Não posso fitar os meus filhos. A desgraça venceu-me. Sei que vou ousar o crime, mas a paixão é mais forte do que o desejo e é da paixão que nasce o pior mal dos homens.
(Medeia - Recriação Poética da Tragédia de Eurípides, Editorial Caminho, Lisboa, 2006, pp. 61-62)
«A menção de uma Medeia de Eurípides nas listas, repetidas de livro para livro, dos títulos completos da autora foi sempre, para todos quantos nos dedicamos aos estudos helénicos em Portugal, motivo de desmedida curiosidade. Como é que seria ler um poeta trágico grego no português de Sophia de Mello Breyner Andresen? [...] A experiência de ler a Medeia de Sophia, agora proporcionada pela primeira vez ao público de língua portuguesa, tem tanto de surpreendente como de previsível. E se começo já por afirmar que se trata aqui, em minha opinião, da mais bela versão alguma vez feita de uma tragédia grega para língua portuguesa, tenho também de chamar a atenção do leitor para o condicionalismo em que tal afirmação tem necessariamente que ser entendida. Condicionalismo esse que consiste neste problema muito simples de enunciar, mas muito difícil de resolver: o helenista profissional não é a pessoa mais indicada para fazer justiça à poesia de uma tragédia grega, sobretudo se está em causa a perspectiva de essa tradução ser levada à cena e representada perante um público. Embora o helenista tenha a responsabilidade de pôr à disposição de quem se interesse academicamente pelo teatro antigo traduções fidedignas e rigorosas, traduções que eu classificaria como «de consulta», o tradutor ideal de uma tragédia grega terá de ser poeta: alguém que põe a essência da mensagem veiculada pelas palavras à frente da veiculação literal das palavras em si.»