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Uma Entrevista Por Mês...
Março de 2006 - Fernando Correia
Entrevista elaborada a partir de questões formuladas pelos leitores

Como jornalista que é, qual a opinião que emitiria se a expressasse numa coluna de um periódico, sobre os recentes acontecimentos no 24 Horas e a investigação de que foi alvo?

a) atitude das instituições governamentais;

b) atitude dos jornalistas sob investigação;

 

A busca efectuada por entidades policiais nas instalações do jornal 24 Horas e a eventual violação de dados pessoais dos jornalistas é um caso não apenas lamentável, mas totalmente condenável. Na prática, e em termos simples, o que se passou foi que o diário denunciou um abuso, e as investigações, em vez de incidirem sobre os responsáveis pelo abuso, preocuparam-se com quem o tinha denunciado!

Neste episódio, foram postos em causa os direitos, liberdades e garantias dos jornalistas, quer, desde logo, como cidadãos quer como membros de uma profissão específica, para quem o sigilo das fontes é condição necessária e indispensável para o livre e cabal desenvolvimento da sua missão.

Os jornalistas não podem nem devem usufruir de privilégios especiais nem estar fora da alçada da lei, como qualquer outro cidadão. Mas quando a especificidade da sua profissão é esquecida pelas entidades judiciais, como no caso da protecção do sigilo das fontes, é a própria função da imprensa, enquanto elemento essencial da democracia,  que é ofendida.

A protecção do sigilo das fontes dos jornalistas não é um privilégio destes profissionais, mas sim, numa visão mais global e em última análise, um direito e uma garantia dos cidadãos em geral.

Felizmente, tudo indica que a próxima alteração das leis penais e processuais penais, assim como do Estatuto do Jornalista, sobre a qual parece haver no Parlamento um consenso alargado, irão impedir que no futuro acções como esta tenham qualquer tipo de cobertura legal.

 

Dada a sua longa experiência, o que transmitiria a esta nova geração de «jornalistas» sobre ética nas notícias? Até onde será permitido ir sem desrespeitar os alvos da notícia, mantendo o rigor na pesquisa, na isenção e na posterior informação, tendo em conta as pressões dos chefes redactoriais?

Enquanto membro da comissão organizadora de três congressos de jornalistas e do Sindicato dos Jornalistas, considera que a classe jornalística se encontra preparada para responder às pressões que sofre diariamente na sua profissão?

 

Desde  a segunda metade do século XIX, com o aparecimento da imprensa industrial e o início da ligação íntima entre os jornais e a publicidade , seu principal ou, no caso do audiovisual, único sustentáculo, que o poder económico passou a pouco e pouco a ser o verdadeiro primeiro poder. A imprensa, provisoriamente erigida em quarto poder (acrescentando-se aos tradicionais, o legislativo, o executivo e o judicial), tornou-se hoje, claramente, um mero (ainda que dotado de uma autonomia relativa) poder delegado do poder económico.

Isto teve como consequência, no que se refere ao jornalismo, a prioridade dada à luta pelas audiências (visto serem estas que permitem aumentar a publicidade e, portanto, os lucros) e o consequente  predomínio dos critérios comerciais nas políticas informativas (é boa a notícia que vende bem).

A actividade dos jornalistas passou assim a estar sujeita a pesados condicionalismos, que os coloca, nomeadamente aos mais novos e laboralmente mais fragilizados (recibos verdes, contratos a prazo, etc.) em situações que, no limite, os obriga a escolher entre a fidelidade aos princípios deontológicos da profissão ou o fim do emprego.

Que caminho seguir? Não parece haver outro – pelo menos para aqueles que não se deixam contaminar ou convencer pela ideologia dominante – que  não seja, por um lado,  a vontade e a capacidade de conseguir manter um equilíbrio digno entre o respeito pelas regras profissionais e as pressões vindas de cima. O que, reconheça-se, não é coisa fácil. Sendo certo que não se pode pedir aos jornalistas que sejam heróis todos os dias.

Por outro lado, não se trata apenas de sobreviver na luta contra os constrangimentos. Trata-se também de, organizada e colectivamente, encontrar caminhos e plataformas de reivindicação e de luta que ajudem a valorizar um jornalismo que respeite o público e seja o mais possível fiel à responsabilidade social que se lhe deve exigir.

Penso, aliás, que o facto de, actualmente, já mais de metade dos jornalistas no activo terem um curso superior de jornalismo ou comunicação, ou pelo menos a sua frequência, garante (em teoria) uma melhor preparação para enfrentar os desafios que se colocam à profissão.

 

Perante uma informação cada vez mais parcial, que conselhos pode dar para que o leitor/espectador possa manter alguma capacidade de reflexão sobre as notícias que recebe?

 

Perante as debilidades da informação veiculada pelos media de grande audiência, nomeadamente a televisão, torna-se necessário desenvolver esforços no sentido de recorrer a uma informação alternativa, quer na imprensa quer noutro tipo de leituras. O telespectador/leitor terá que ter perante os media uma atitude crítica, que não se pode traduzir num cepticismo inócuo e inoperante, mas sim numa vontade de procurar, individualmente ou, de preferência, juntamente com outros, o outro lado das notícias.

É preciso vontade, iniciativa e criatividade para se desmontar a informação que quotidianamente nos chega e inunda. A formação de clubes de telespectadores, que realizem periodicamente debates e outro tipo de iniciativas, é um bom exemplo, já seguido em colectividades ou por simples grupos de amigos.

Estar informado dá trabalho.

 

Perante um aumento na criação de blogues, muitos deles "alimentados" por jornalistas, considera que estamos perante uma possível "ameaça" à imprensa tradicional?

 

A actividade jornalística implica: a) Procura e recolha da informação (no local dos acontecimentos, junto das fontes, etc.); b) Confirmação e avaliação dos elementos obtidos (cruzamento de fontes, exercício do contraditório, etc.) e selecção dos mais actuais, importantes e interessantes; c) Elaboração do material informativo, de forma clara e compreensível, tendo em conta o público a que se destina; d) Edição final, de acordo com o suporte utilizado (imprensa, rádio, televisão, online).

Não é possível conceber a actividade jornalística à margem deste processo produtivo – e, portanto, não me parece que os blogues, da autoria ou não de jornalistas, constituam uma ameaça ao jornalismo “tradicional”, em papel ou noutro qualquer suporte.

É certo que a opinião, expressa por jornalistas ou por colaboradores dos media, é uma componente complementar e por vezes indispensável ao tratamento noticioso de um acontecimento ou à abordagem de uma problemática. Encarada isoladamente, porém, desligada da sustentação que só lhe pode ser dada pela investigação jornalística, e surgindo apenas como a expressão de um ponto de vista meramente pessoal – como geralmente acontece nos blogues – não pode ser considerada como jornalismo propriamente dito.

Poderá, eventualmente, haver blogues da autoria de jornalistas e cujos textos resultem de um verdadeiro trabalho jornalístico, no cumprimento das tarefas acima mencionadas. Fora destes requisitos não estamos no terreno do jornalismo – ainda que as opiniões ou informações veiculadas possam ou mesmo devam ser investigadas pelos jornalistas. E sendo certo que, pelo menos em alguns casos, a existência dos blogues é – dentro dos seus justos limites – um importante contributo para o enriquecimento do espaço público.

 

Que futuro se pode prever para a imprensa tradicional quando a grande maioria dos jornais apresenta páginas on-line com uma informação actualizada ao longo do dia?

 

Dada a constante evolução tecnológica verificada desde o fim  do século passado no domínio das novas tecnologias aplicadas à comunicação e à informação, as previsões quanto a futuro, a médio prazo que seja, são muito arriscadas.

Arrisco-me a afirmar, porém, que ainda durante algumas décadas não será previsível o desaparecimento da imprensa tradicional, ou seja, do jornal em papel. O on-line tem a seu favor a imediatez da informação, mas esta característica acaba por constituir um handicap em relação à imprensa, na medida em que esta nos permite maior facilidade no manuseamento, hierarquização, aprofundamento e reflexão sobre os textos editados.

A história dos media ensina-nos que um novo media não matou os que já existiam – obrigou-os, sim, a adaptarem-se às novas condições. Foi assim com a rádio, nos anos 20 e 30 do século passado, que, apesar dos receios dos donos dos jornais, não acabou com eles; também a televisão, nos anos 50, não matou nem a imprensa nem a rádio; igualmente a Internet não pôs termo aos media já existentes. Só o futuro nos dirá se assim continuará a ser…

 

Enquanto jornalista, como encara a crescente presença de jornalistas/comentadores, que formulam comentários parciais porque pessoais, em diversos canais de televisão? Considera que este factor pode levantar dúvidas sobre a ética jornalística?

 

Não entendo o jornalista como um mero técnico de informação, limitado à função de produtor de notícias. Os jornalistas têm não só todo o direito a terem opinião, mas também  a expressá-la. Com uma condição: perante o leitor/ouvinte/telespectador deve aparecer como perfeitamente clara a distinção entre a notícia e a opinião – o que, infelizmente, muitas vezes não acontece,  nomeadamente quando o modo como se apresentam os factos ou a própria linguagem utilizada levam as pessoas a tomarem como informação aquilo que, realmente, já é opinião sobre os factos.

Entretanto, o que acontece é que, nomeadamente nas rádios e televisões, há uma certa camada de jornalistas, pertencente à restrita elite dos directores e outros responsáveis editoriais, que constantemente aparecem a opinar sobre tudo e sobre nada, muitas vezes saltando de  estúdio para estúdio, num incessante rodopio. O mais grave não é, propriamente, que eles lá estejam, mas sim que sejam só eles, sem que outros jornalistas com opiniões diferentes participem igualmente no debate, deste modo contribuindo para o enriquecimento e a formação da opinião pública, na base do pluralismo.


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