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GONÇALO M. TAVARES

Uma Entrevista por Mês...

Novembro de 2005 - Gonçalo M. Tavares
Entrevista elaborada a partir de questões formuladas pelos leitores

 

 

Eu sou um jovem escritor. Que conselhos me dá para melhorar o meu nível de escrita?


As experiências são determinantes, mas o fundamental é mesmo ler, ler, ler muito e ler bem, ler os melhores autores – e escrever, não parar de escrever.

Saiu agora um livro muito divertido de Vila-Matas que lhe aconselho - Paris nunca se acaba sobre o seu início na actividade de escritor. Desmonta um pouco os mitos e brinca com a questão dos conselhos.

 

Os escritores que conheço são por norma geniais mas apresentam grandes

falhas nas capacidades humanas (principalmente relacionais), sendo que a

família e as pessoas mais próximas tendem a sofrer muito com isso. O Gonçalo M. Tavares é, para mim, um raro exemplo que contraria esta regra. É um escritor genial que soube muito bem traçar prioridades e dedicar-se a seu tempo à escrita e a seu tempo à família, de forma plena nas duas áreas.

Pessoalmente, pensa que as falhas humanas são o reverso da medalha da

genialidade dos escritores? Como conseguiu conciliar tão bem a família (os afectos) e a escrita?

 

Tento proteger aquilo que me protege: a família. Por isso ela está sempre num local pouco visível.

De qualquer maneira, cada autor é diferente, há artistas e criadores com os gostos privados mais variados. Há grandes escritores que tiveram uma vida de família e grandes escritores que não a tiveram. A vida pessoal e a criação artística não se cruzam; não é por se ter uma determinada vida pessoal que se faz uma grande obra. Faz-se uma grande obra quando se faz uma grande obra.

 

 

"Os senhores" são narrativas difíceis de catalogar, de tal forma que chegaram a ser consideradas narrativas infanto-juvenis. Qual é a intenção que preside a esta ambiguidade no género?

 

Um dos meus livros a que dou maior importância é O Senhor Valéry, precisamente porque tem leituras que passam pela filosofia - leitores da ‘pesada’ associam-no a Wittgenstein e a outros filósofos  e escritores - ao mesmo tempo que pode ser lido por crianças. Ser simples e ter diferentes leituras (camadas) agrada-me.

Os senhores andam muito à volta de episódios lógicos.

 

Pensa contemplar alguma figura da cultura portuguesa em próximos livros da colecção "O Bairro"?

 

De imediato não, mas daqui a uns tempos talvez. Vamos ver. O bairro não tem nacionalidades: sairam agora O Senhor KrausO Senhor Calvino.

 

Na colecção "O Bairro", porquê a escolha desses nomes para personagens centrais? A escolha é aleatória ou intencional?

 

É uma escolha intencional. Começa por ser, de certa forma, uma homenagem a autores. Da mesma forma que podemos dar o nome de alguém de quem gostamos a uma sala ou a um objecto, também podemos dar nomes assim a personagens. É o caso. São nomes de escritores de que gosto.

 

Partindo do princípio de que alguns dos nomes tratados na colecção "O Bairro" se referem a outros autores, na construção dessas obras o Gonçalo tenta aproximar-se da escrita de cada um deles ou tenta encontrar, na escrita de cada um, pontos de contacto com o seu universo literário?

 

As histórias de cada senhor são um pouco influenciadas pelo espírito do nome da personagem. Há um cruzamento: não tanto no tipo de escrita, mas mais nos temas: há uma certa influência do universo literário de cada autor. O Senhor Brecht conta histórias cujo pano de fundo tem uma certa relação com os temas que preocupavam B. Brecht.

 

O nome da colecção "livros pretos" pressupõe alguma relação com os temas neles tratados?

 

Sim. São livros agressivos e por isso tento avisar os leitores: a capa é um sinal. Para que os leitores não vão ao engano e pensem que é um tipo de escrita semelhante aos Senhores.

 

Ainda nos "livros pretos", qual a razão para a atribuição de uma sub-classificação "o reino"?

 

“O Reino” é o título de um romance extenso que é composto de diferentes romances. Para já saíram Um homem: Klaus Klump, A Máquina de Joseph Walser e Jerusalém. São romances ligados entre si (com personagens que estão em diferentes livros) que partem de uma tentativa de compreender o mal. Provavelmente existirão livros pretos que não pertencerão ao “O Reino”, daí a separação.

 

Qual a razão para a escolha de nomes maioritariamente não-portugueses para os personagens dos "livros pretos"? Esta escolha dos nomes pretende remeter-nos para algum campo ficcional ou geográfico/espacial?

 

Não foi uma escolha pensada, foi uma escolha instintiva, que surgiu no acto de escrita. A certa altura, os nomes impõem-se, é como se as personagens só se pudessem chamar assim, como se não existissem outros nomes possíveis. Sinto que estas personagens teriam que ter estes nomes, mas não é para as localizar geograficamente. Estes romances poderiam passar-se em qualquer sítio.

 

Discute-se hoje em dia, a propósito de um grupo de novos autores, a ausência de uma escrita que seja reflexo de um modo de ser e de pensar português. Onde é que o Gonçalo se enquadra, tendo em conta que os seus livros parecem apontar para uma temática universalista?

 

Julgo que a resposta anterior também responde em parte a esta pergunta. O meu instinto primário foi escrever romances para tentar perceber o mal, como é que ele surge, em que situações se desenvolve e manifesta, etc. A possibilidade de o homem fazer o mal não é característico do nosso país, é característico dos homens em geral. Pessoalmente não quero conhecer e investigar o Homem Português, quero sim perceber e investigar o homem, no geral, e os seus comportamentos.

Julgo que não é muito entusiasmante definir e ficar circunscrito a um pensamento ou uma escrita portuguesas. Eu escrevo em Língua portuguesa e esse é um ponto de partida fundamental. Mas a literatura é um assunto do homem, não de pátrias. Os grandes temas humanos atravessam os vários homens dos vários países. Podemos exprimir a dor que sentimos numa Língua, mas a dor, ela própria não tem gostos ou restrições linguísticas.


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